302 Found

Found

The document has moved here.

Por Dayana Andrade e Felipe Pasini.

Parte dos desafios de um pesquisador é conseguir comunicar os resultados de sua investigação científica para a sociedade. O que dizer então do desafio de estabelecer um diálogo entre aquilo que você estudou e os “mini cidadãos”, as crianças de uma comunidade. Nos últimos seis meses nós tivemos a oportunidade de fazer isso com as pesquisas acadêmicas de mestrado e doutorado que desenvolvemos no PPG-CiAC, levando parte de nossas hipóteses e dados levantados para a prática: implantamos hortas-florestas com as crianças das escolas primárias de uma zona no interior de Portugal.

 

-NOSSA PESQUISA FOI PARA A ESCOLA (1).jpg

Dia de plantio dos ninhos: princípios ecológicos experimentados na prática.

 

Estamos falando do Alentejo Profundo, na fronteira sudeste com a Espanha, uma região que vive de perto a ameaça da desertificação. Apesar de Portugal ser um país muito pequeno em comparação com o Brasil, essa região tem um histórico de sempre ter sido preterida pelos grandes centros urbanos, localizados mais ao centro-norte. Uma zona árida, marcada pelo latifúndio e, por muito tempo, esquecida pelo poder público. Qualquer semelhança não é mera coincidência, somos pátrias irmãs. Além disso, a cultura rural compartilha muitas características mundo a fora e, com os extremos climáticos, a urgência pela regeneração de ecossistemas e por modos de produção mais resilientes acaba por unir ainda mais as realidades em torno de uma agenda compartilhada globalmente.

O Projeto das Hortas-Florestas foi implantado em cinco escolas públicas de Mértola, uma cidade cuja comunidade educativa se uniu para fazer a diferença. Por meio das Atividades de Enriquecimento Escolar aliadas ao conteúdo curricular de “Estudos do Meio”, pudemos desenvolver, junto com crianças entre 7 e 9 anos, competências que extrapolam a habilidade técnica de se fazer uma horta. Foram oferecidas oportunidades de aprendizado na prática de questões relativas à gestão da água, à recuperação da fertilidade dos solos, mas também com relação à valorização de uma alimentação variada, sazonal e livre de agroquímicos. A Horta-Floresta é um laboratório vivo que estimula a observação autônoma da natureza e na qual os alunos plantam, cuidam, colhem e comem o resultado de seu cultivo. A alfabetização ecológica de Fritjof Capra e a agricultura sintrópica de Ernst Götsch constituíram os fundamentos técnico-pedagógicos que deram base e orientação para o desenvolvimento das atividades. Enquanto a primeira oferece o suporte para promover uma educação à serviço do desenvolvimento de comunidades humanas sustentáveis, a segunda alia conhecimentos ecológicos profundos com técnicas capazes de sincronizar a produção agrícola com as dinâmicas sucessionais dos ecossistemas, de modo a criar condições para se trabalhar a regeneração pelo uso. As crianças, portanto, além de cultivar seus alimentos, aprendem a enfrentar e, sobretudo, a reverter os impactos ambientais que infelizmente irão herdar.

 -NOSSA PESQUISA FOI PARA A ESCOLA (5).jpg

Dia de colheita das batatas: resultado de plantio sem agroquímicos e sem irrigação.

 

-NOSSA PESQUISA FOI PARA A ESCOLA (4).jpg-NOSSA PESQUISA FOI PARA A ESCOLA (3).jpg

Dia do desafio degustativo: de olhos fechados, as crianças tinham que diferenciar pelo sabor diversas folhas e flores comestíveis.

 

-NOSSA PESQUISA FOI PARA A ESCOLA (2).jpg

Dia da “Greve pelo Clima”: as crianças participaram do movimento global “School Strike for Climate” liderado pela ativista Greta Thunberg.

 

Desde que iniciamos esse trabalho, nossas hortas já renderam muita alface, brócolis, couves, batatas, cebolas, grãos e diversas hortaliças da temporada. Mas também fizemos outras importantes colheitas: os alunos adotaram as hortas como seu novo espaço para ao mesmo tempo brincar e aprender; as crianças fizeram parte de manifestações globais pelo clima; criou-se um ambiente de integração e sociabilidade intergeracional, no qual os pais e os funcionários da escola participam das colheitas e fazem refeições compartilhadas; as árvores plantadas junto com as hortas deixam como resultado permanente para as escolas novas áreas de sombreamento e drenagem de calor; foram estimuladas as relações de afeto e de vínculo com o território, o que ajuda a prevenir o êxodo; e, mais recentemente, colhemos o reconhecimento materializado na forma de premiação em 2º lugar em concurso nacional de sustentabilidade.

https://vimeo.com/339432345

Vídeo de apresentação de uma das hortas implantadas.

Ficamos muito felizes de poder compartilhar essa notícia aqui no PPG-CiAC porque esse espaço também nos dá a oportunidade de reconhecer a importância que o programa teve em nossas carreiras. Agradecemos a ampla formação instrumental e intelectual que recebemos em nosso percurso acadêmico neste programa, além da convivência enriquecedora tanto em nível institucional quanto nas relações com professores e colegas. Todos ajudaram a pavimentar esse caminho que hoje nos enche de propósito. Um especial agradecimento também à influência determinante de nosso orientador Prof. Fabio Scarano, que tanto defende a construção de pontes entre a academia e a sociedade, e que conduziu e apoiou nossas incursões transdisciplinares. Por fim, agradecemos os parceiros de Portugal – em especial a Câmara Municipal de Mértola e a Escola Profissional Alsud – que, ao se abrirem para novas ideias, demonstram que é possível haver transições agroecológicas também dentro das instituições, e que o investimento em educação rende frutos mais rápido do que se pode imaginar.

UFRJ PPGCIAC - Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação
Desenvolvido por: TIC/UFRJ